Artigo

Publicado em: 18/7/2016

O novo “olhar” sobre o chocolate

Por Dra. Isabela David
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Costuma-se chamar de visão de mundo a perspectiva com a qual um indivíduo, uma comunidade ou uma sociedade enxergam o mundo e seus problemas em um dado momento da história, reunindo em si uma série de valores culturais e o conhecimento acumulado daquele período histórico em questão. Se estendermos este conceito aos alimentos, percebemos que também a eles conferimos “valores”, “opiniões”, “atributos”, baseados nas informações que chegam até nós, categorizando-os como bons ou ruins, saudáveis ou não.

 

Em se tratando do chocolate, durante muito tempo era um alimento que engordava e dava espinhas, o que frequentemente causava algum sentimento de culpa ao ser ingerido. Mas, não para nossa surpresa, já que não é a primeira vez que isso acontece no mundo da Nutrição, de uns tempos para cá ele vem assumindo papeis cada vez mais benéficos, à medida que os estudos se aprofundam sobre sua composição e propriedades, mais precisamente sobre as do cacau.

 

Um artigo publicado em setembro (2011) no British Medical Journal BMJ – Chocolate consumption and cardiometabolic disorders: systematic review and meta-analysis – faz uma revisão do papel do chocolate na prevenção e controle de alterações cardiometabólicas. De fato, os produtos à base de cacau, rico em flavanols (polifenois) têm demonstrado conferir benefícios para a saúde humana, com efeitos antioxidantes, antihipertensivos, antiinflamatórios, antiaterogênicos e antitrombóticos. Complicado?

 

Entenda apenas que, segundo estas informações mais recentes, o chocolate amargo (dark chocolate), rico em polifenois, surpreendentemente entrou para o grupo dos alimentos funcionais – aqueles que, além de exercerem as funções nutricionais básicas, são capazes de conferir benefícios extras para a saúde e atuar na redução de risco de doenças.

 

Agora, cuidado! Existem chocolates e chocolates. Um artigo publicado no American Journal of Clinical Nutrition AJCN em 2005 – Short-term administration of dark chocolate is followed by a significant increase in insulin sensitivity and a decrease in blood pressure in healthy persons – verificou aumento significativo da sensibilidade à insulina e diminuição da pressão arterial em pessoas saudáveis com a administração durante 15 dias de 100 g por dia de chocolate amargo, que contém aproximadamente 500 mg de polifenóis, em comparação com a administração de 90 g por dia de chocolate branco, que presumidamente não contém polifenóis. Mas 100 g pode ser muito! Recomenda-se, em geral, uma pequena porção diária, em torno de 25-30 g, embora um artigo publicado no Current Opinion in Lipidology, em 2002, tenha estabelecido porções maiores para conferir benefícios a curto e a longo prazo, respectivamente de 38 a 125 g por dia.

 

Talvez você se depare com a referência de 40 g, mas, na verdade, não considero que exista uma porção definida para todas as pessoas. Inclusive, sabe-se que parte dos efeitos dos flavanols pode ser perdida durante o processamento. Quanto maior o processamento – como fermentação, oxidação, alcalinização e torrefação – maior a perda. Portanto, sempre que possível, prefira as versões mais caseiras, menos processadas e mantenha-se informado sobre este assunto, atento aos produtos disponíveis no mercado para que esteja comendo realmente chocolate rico fitoquímicos.

 

A indústria alimentícia, de certa forma, tem ajudado: hoje existe uma gama imensa de opções, com as concentrações de cacau especificadas nas embalagens. Pequenos tabletes de cerca de 20 g podem ser percebidos como “na medida certa”. Mas, lembre-se: versões caseiras continuam sendo a melhor opção.

 

Quanto à gordura do chocolate, um estudo de metanálise, publicado em 2011 no European Journal of Clinical Nutrition EJCN, investigou os efeitos do cacau/chocolate amargo sobre o perfil lipídico. Foram analisados 10 estudos randomizados, duplos-cegos. O artigo ressalta que, além de ser fonte de calorias, o chocolate contém ácidos graxos saturados, os quais, assim como os ácidos graxos trans produzidos artificialmente, são tidos como gorduras ruins, em contraposição aos ácidos graxos mono e poli-insaturados, considerados gorduras boas. Os dados obtidos foram consistentes com os benefícios atribuídos ao chocolate amargo, com redução significativa do colesterol total e LDL-colesterol nos grupos com intervenção, sem maiores efeitos no HDL-colesterol e triglicérides em estudos de curta duração (2-12 semanas). Isto tudo porque existem diferentes tipos de gorduras saturadas, com efeitos diferentes sobre o perfil lipídico.

 

Das gorduras saturadas do chocolate, mais da metade corresponde ao ácido esteárico (57%), que tem um efeito neutro sobre o colesterol sérico. O ácido palmítico tem, de fato, um efeito prejudicial, mas ele tem menor concentração na manteiga de cacau. Por outro lado, quanto mais o chocolate for ao leite, mais gordura saturada derivada dos laticínios ele poderá conter, com efeitos reconhecidamente prejudiciais sobre o perfil lipídico.

 

Outro estudo, publicado no Journal of Nutrition JN de outubro 2011 – Flavonoid-Rich Cocoa Consumption Affects Multiple Cardiovascular Risk Factors in a Meta-Analysis of Short-Term Studies – observou aumento do HDL-colesterol com a ingestão de cacau rico em polifenóis (máximo benefício com a dose de 500 mg/dia de polifenóis), além de beneficiar outros fatores de risco cardiovascular.

 

Agora o mais surpreendente: o chocolate amargo vem sendo recomendado também para ajudar no processo de emagrecimento. Imagine! Isso devido à presença de substâncias que agem no cérebro, fechando os receptores que aumentam a vontade de comer doces.

 

Enfim, há quem questione isso tudo que vem surgindo sobre o chocolate: bom demais para ser verdade? Eu lhe recomendaria conferir com o seu médico e entrar na onda, se não houver nenhuma contraindicação, sempre mantendo a moderação!

 

Que isto lhe traga charme, prazer e benefícios extras para a sua saúde!

 

Artigo publicado em 2012 e revisado em março de 2016.

 

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Dra. Isabela David

Médica nutróloga com Título de Especialista em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Médica Brasileira (AMB)

CRM-SC 6356 / RQE 7455

E-mail: isabela.nutre@gmail.com




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